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Instalação audiovisual e participativa · 2023–2024

Pedras que Gritam

O gesto de tocar pedras da ribeira, a memória das Pedrinhas de Arronches e a participação do público.

A obra

Três peças videográficas acompanham a apresentação das pedras, o seu posicionamento nas mãos e a técnica de toque. A composição sonora de João Paulo Miranda parte de gravações das pedras. Ao centro, os conjuntos disponíveis para manuseamento aproximam o público desta prática cultural de Arronches.

Diário original no Notion
Sobre estes registos

Seleção e revisão editorial das entradas do diário original, preservando a primeira pessoa e as datas aí indicadas. Organização pelas sete fases do método a/r/cográfico. As fases sobrepõem-se no tempo; as datas de ficheiros e fotografias não foram usadas para datar acontecimentos. Esta página documenta a versão original, sem a confundir com Pedras que Gritam 2.0.

01

Inspiração

Uma prática que faz parte do meu território

Vivo em Arronches desde os cinco anos e a minha ligação à comunidade acompanha o interesse pela cultura local. Entre as suas expressões patrimoniais, as Pedrinhas de Arronches destacam-se pela técnica singular de manuseamento das pedras da ribeira. É esse gesto, transmitido entre praticantes, que me interessa conhecer e tornar visível.

A preocupação com o número reduzido de tocadores orienta esta pesquisa. A instalação começa a desenhar-se como uma possibilidade de sensibilização para a salvaguarda da prática, através de uma relação direta entre imagem, som e experiência do público.

A pedra como matéria sonora

A pesquisa sobre o Giardino Sonoro de Pinuccio Sciola alarga a minha atenção à relação entre pedra, toque e escuta. As referências a gongos de pedra, litofones e outras experiências sonoras ajudam-me a situar as Pedrinhas de Arronches num campo mais amplo, sem perder de vista a especificidade da sua técnica.

O arquivo sonoro como referência

Em Temporary Stored, de Joseph Kamaru (KMRU), encontro uma referência para pensar o som como portador de memória e para questionar a forma como os arquivos representam as comunidades. Esta aproximação motiva-me a aprofundar a dimensão crítica do projeto: documentar uma prática implica também refletir sobre as condições em que é escutada e apresentada.

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02

Gatilho

Registo do gatilho do projeto

Esta fase encontra-se documentada num relatório intermédio associado ao diário original. O relatório constitui o registo específico do gatilho; a sua leitura complementa as notas de inspiração e a formulação da intenção que se segue.

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03

Intenção

Dar forma à urgência de preservar

Pretendo criar uma instalação audiovisual que sensibilize o público para a preservação do património cultural imaterial. A técnica de tocar pedras da ribeira, praticada pelo Grupo das Pedrinhas de Arronches, será o ponto de partida.

Quero que o público acompanhe uma narrativa e possa experimentar os objetos. Nesta fase, o título ainda não está fechado, mas a expressão Pedras que Gritam surge como uma forma de traduzir a urgência que associo à salvaguarda desta prática.

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04

Conceptualização

Da intenção aos primeiros desenhos

Com a intenção definida, começo a transformar as ideias em propostas concretas. O conceito ainda precisa de investigação e experimentação. Partilhar os esboços com colegas e professores será importante para confrontar as opções iniciais e perceber se respondem ao que pretendo comunicar.

Três momentos, três monitores

Os primeiros esboços levam-me a considerar três monitores em linha, cada um dedicado a uma fase da técnica. A alternativa de projetar em três telas também me interessa, mas a área disponível para a exposição pode limitar essa solução. O espaço começa, assim, a influenciar a configuração do artefacto.

Esboço da instalação, integrado na entrada de 8 de fevereiro de 2024.
Esboço da instalação, integrado na entrada de 8 de fevereiro de 2024.

Rever a encenação da instalação

O diálogo com o professor Pedro Veiga leva-me a reconsiderar a disposição da obra e a relação entre narrativa, interação e fruição. Retomo uma hipótese de instalação mais ampla, mas reconheço que a primeira apresentação está condicionada pelo espaço disponível. Essa possibilidade permanece em aberto para uma evolução posterior.

Quatro cubos luminosos

Regresso à solução com monitores e acrescento quatro cubos luminosos: três suportam os ecrãs e um recebe as pedras. Nos cubos dos monitores, o vermelho remete para a urgência da salvaguarda; o cubo central mantém a ligação à origem das pedras.

Desenvolvo a proposta em Adobe Dimension para estudar a escala e a distribuição dos elementos. A maquete permite-me avaliar a presença da instalação no espaço, mesmo com um formato mais contido.

Maquete digital em Adobe Dimension. Visualização do projeto, não fotografia da instalação.
Maquete digital em Adobe Dimension. Visualização do projeto, não fotografia da instalação.
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05

Prototipagem

Registar o som das pedrinhas

A gravação decorre no estúdio do Instituto Politécnico de Portalegre, com Luís Figueira, antigo elemento do Grupo das Pedrinhas de Arronches, como executante. O professor Telmo Monteiro assegura a captação, com recurso a um microfone cardioide, e o tratamento do som em mesa de mistura. Este registo fornece a matéria sonora para o desenvolvimento da obra.

Registo do processo de gravação, publicado no diário original.
Registo do processo de gravação, publicado no diário original.

Construir o ambiente sonoro

Convido João Paulo Miranda a desenvolver a composição a partir das gravações. A colaboração dá origem a três peças sonoras que articulam a matéria tradicional com o tratamento tecnológico. O resultado aproxima-se de uma linguagem mais abstrata, sem abandonar o som das pedras como ponto de partida.

Filmar o gesto

Organizo a filmagem em três momentos: apresentação das pedras, posicionamento nas mãos e técnica de toque. O plano de detalhe, centrado nas mãos do executante, e o fundo preto concentram a atenção no gesto. Os vídeos são registados em 1920 × 1080 píxeis.

Entre o digital e o analógico

Na pós-produção em Adobe Premiere Pro, trabalho a sobreposição de camadas, a duplicação de quadros e os efeitos visuais. Procuro uma ambiguidade entre a imagem digital e a aparência de dispositivos analógicos, explorando a repetição e o ritmo.

As três peças partilham uma linguagem visual, mas preservam performances distintas. A sequência torna visível a passagem do objeto para o seu posicionamento e, finalmente, para a execução da técnica.

Exemplo de pós-produção do terceiro vídeo, conservado no diário original.
Exemplo de pós-produção do terceiro vídeo, conservado no diário original.
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06

Testes e correções

Primeiro encontro com um público restrito

Testo o artefacto nas instalações do CACI, uma valência do Centro de Bem Estar Social de Arronches, com colegas de diferentes áreas profissionais. Antes da interação, apresento brevemente a obra e os seus objetivos. Nesta sessão, os cubos luminosos ainda não estão disponíveis e a iluminação e a disposição do espaço não correspondem à configuração final.

O que as reações tornam visível

As reações revelam curiosidade pela técnica e interesse pelos elementos visuais e sonoros, embora algumas pessoas refiram desconforto com a composição musical. Entre as sugestões surgem ecrãs maiores, vídeos mais lentos e legendas.

São também propostas a retirada da sobreposição vermelha dos vídeos, porque os cubos já transmitiriam essa intenção, e uma indicação junto das pedras que torne explícita a possibilidade de interação. Registo estas propostas como questões a ponderar, sem as confundir com alterações já executadas.

Testar com os cubos luminosos

Consigo requisitar os cubos por um dia e realizo um novo teste no mesmo local, com um grupo mais reduzido. Alguns participantes não tinham estado presentes na sessão anterior. A instalação pode agora ser apreciada com os suportes luminosos e em condições de iluminação mais próximas das pretendidas.

Montagem para o teste com os quatro cubos luminosos. Fotografia do diário original.
Montagem para o teste com os quatro cubos luminosos. Fotografia do diário original.

A escala como possibilidade de evolução

A análise desta sessão aponta para uma receção mais positiva, embora o número de participantes seja menor. A presença dos cubos e a iluminação alteram significativamente a apreciação da instalação. A questão da escala mantém-se: considero que um formato maior poderia ampliar a dimensão estética da obra, mas essa hipótese fica para uma revisão posterior.

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07

Intervenção

Preparar a apresentação em Circuitos

O diário reúne a preparação da participação na exposição Circuitos: Interconexões e percursos, na Universidade Aberta, em Lisboa. A proposta curatorial relaciona os artefactos, o espaço e os visitantes através da ideia de circuito, cuja experiência se concretiza na presença do público.

A planificação de Pedras que Gritam inclui três monitores, um computador, quatro cubos de acrílico, colunas e pedras, além das ligações e dos materiais de montagem. O registo integra a distribuição no espaço, os diagramas técnico e conceptual e as maquetes. A data desta entrada corresponde ao registo de preparação, não à confirmação da data de inauguração.

Consultar a fase completa no diário original

Créditos e fontes

Conceção e criação
Pedro Henriques
Execução da técnica na gravação
Luís Figueira
Captação sonora
Telmo Monteiro · Instituto Politécnico de Portalegre
Composição sonora
João Paulo Miranda

Textos, datas e imagens: diário de bordo de Pedro Henriques no Notion. Os relatos dos testes são apresentados em síntese, sem reproduzir os perfis individuais dos participantes.

Consultar o diário original integral