A guerra entra pela sala, mas eu vejo Arronches
A série House Beautiful: Bringing the War Home, de Martha Rosler, ficou a trabalhar dentro de mim porque não trata a guerra como algo distante, arrumado num campo de batalha ou confinado ao noticiário. A guerra entra na casa, instala-se no interior doméstico, invade o espaço confortável onde, supostamente, se está protegido. Em Cleaning the Drapes, por exemplo, a presença da guerra atravessa uma cena doméstica que poderia ser banal. Essa colisão entre conforto, decoração e violência tornou-se uma imagem persistente.
Pensei muitas vezes nessa estratégia de deslocação. Rosler trazia a guerra do Vietname para o interior da vida americana; eu comecei a perguntar-me o que aconteceria se trouxesse a gramática visual das guerras contemporâneas para Arronches. Não para criar uma comparação direta, nem para fingir que Arronches viveu esse acontecimento, mas para testar a violência simbólica desse deslocamento.
A vila que conheço não aparece, no meu imaginário, como zona de guerra. Aparece como território de circulação, memória, vizinhança, arquitetura, rotina e pertença. Talvez por isso a ideia me tenha perturbado tanto. Ao imaginar fumo sobre fachadas reconhecíveis, marcas de destruição em ruas familiares ou pontes envolvidas numa atmosfera de ameaça, senti que a distância entre “lá” e “aqui” se desfazia.
Esta entrada nasce desse desconforto. A inspiração não veio de uma vontade de produzir imagens espetaculares de destruição. Veio antes da sensação de que eu próprio consumo imagens de guerra com uma distância moralmente cómoda. Arronches tornou-se o lugar onde essa distância deixou de funcionar.
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